O IEN na mídia

Fonte : Revista Brasil Nuclear - ano 6 - nº 18 - Jan-Mar/1999


Angra 3 é fundamental para o Rio de Janeiro

O novo governo do Rio de Janeiro vai dar à energia nuclear o mesmo tratamento dispensado às outras fontes de geração de energia, como a hidrelétrica, o gás e a eólica. "Todas elas são economicamente viáveis e, como tal, irão receber atenção total do nosso governo", garante o titular da nova secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Granja Victer. Com 36 anos, formado em engenharia pela Universidade Federal do Rio Janeiro e em administração pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com pós-graduação em Finanças pela Fundação Getúlio Vargas e Gerência de Projetos pela Universidade de Harvard, Victer participou da elaboração do programa de governo de Anthony Garotinho. Ele deixou a Gerência de Construção de Plataformas e de Novas Unidades da Petrobrás para assumir o desafio de desenvolver três setores estratégicos, com alto potencial de geração de empregos e de desenvolvimento da economia do estado. Ex-chefe das Divisões de Energia e de Engenharia Econômica do Clube de Engenharia, Victer conhece de perto o setor nuclear, o que lhe permitiu traçar uma estratégia para o seu desenvolvimento. Essa estratégia é baseada em um elenco de ações, onde se destaca o trabalho político junto aos parlamentares de forma a garantir recursos governamentais para empreendimentos como a construção de Angra 3, que considera fundamental para o suprimento de energia elétrica do Rio de Janeiro. Este e outros projetos são detalhados na entrevista concedida a Vera Dantas, de Brasil Nuclear.

Quais são as metas da Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo?

Eu gostaria de ressaltar, em primeiro lugar, que o programa do governo Garotinho está fundamentado em quatro pilares básicos. O primeiro é a cultura da excelência. Consideramos fundamental buscar a excelência na administração pública. O segundo pilar é a inovação. Isso não significa que vamos criar coisas novas, mas sim aproveitar experiências bem-sucedidas de outros estados e outros países. O terceiro pilar é a humanização. Nós consideramos fundamental que as ações de governo devam ser humanizadas, do ponto de vista social e da geração de emprego. Finalmente, temos o pilar da cooperação. Partimos do princípio de que nossas ações e nossos trabalhos não sairão apenas das nossas cabeças. Portanto, precisamos envolver, efetivamente, todos os órgãos da sociedade. Dentro dessa perspectiva, é fundamental o envolvimento de instituições importantes como a Aben.

O que levou o novo governo do estado a criar uma secretaria de energia?

Em seu programa de governo, o governador Anthony Garotinho decidiu caracterizar a importância de setores que não vinham recebendo tratamento adequado do governo anterior. As questões de energia, indústria naval e petróleo são muito correlatas e, no entanto, estavam perdidas em outras pastas, sem conseguir receber o foco e a agilidade de tratamento adequados. São setores extremamente sensíveis, com alto potencial de geração de empregos, e que necessitavam de profissionais que conseguissem lhes dar mais direção e agilidade em suas ações. Por ser um técnico do setor, fui convidado para coordenar esse trabalho.

Antes mesmo de assumir o cargo, o governador Garotinho afirmou que receberia um estado com uma situação financeira bastante difícil. Dentro desse contexto de falta de recursos, como o governo pretende investir no setor de Energia?

Nós estamos convivendo com uma situação financeira caótica deixada pelo governo anterior: déficit estrutural elevado, obras inacabadas e uma série de compromissos que o estado só estava conseguindo cumprir através da venda de seus ativos. Mas na questão nuclear, especificamente, nós vamos trabalhar de duas formas. De um lado, queremos mostrar tanto para o país quanto para o exterior que o Rio de Janeiro é o grande pólo nuclear da América Latina, onde estão concentrados usinas, indústrias e centros de pesquisa. Temos a Eletronuclear, operando Angra 1, construindo Angra 2 e com o projeto de Angra 3. Temos a INB, com o complexo industrial de Resende e o sistema de processamento de Terras Raras em Buena, no norte fluminense. A sede da Cnen é no Rio. Instituições de pesquisa importantes como o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) e o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), também estão aqui. Temos, também, na UFRJ (Coppe) e no Instituto Militar de Engenharia (IME), os principais programas de pós-graduação em engenharia nuclear. E, finalmente, temos a Nuclep, um dos principais fabricantes de equipamentos para as usinas nucleares e com um enorme potencial para fornecer também equipamentos para a indústria do petróleo. É uma fábrica provavelmente sem igual em todo o hemisfério sul. Então, temos um pólo, que gera empregos altamente qualificados e com um fantástico efeito de alavancagem tecnológica. Precisamos reconhecer a importância desse complexo e encará-lo de uma forma técnica. Eu pretendo, ao longo deste ano, percorrer e conhecer efetivamente todas as unidades instaladas no Rio de Janeiro e levar o governador a algumas delas.

Uma outra linha de ação que pretendemos desenvolver é um trabalho intensivo junto à bancada fluminense no Congresso, mostrando a importância do setor nuclear para o estado e, conseqüentemente, a necessidade de se evitar que ele seja prejudicado por cortes no orçamento federal. A área nuclear é estratégica e a nossa contribuição será através desse trabalho junto aos parlamentares, para garantir os recursos governamentais, e buscando também dar visibilidade para o país e o mundo.

Quais os projetos do setor nuclear que o sr. considera mais importantes?

Consideramos que a conclusão de Angra 2 é fundamental, principalmente pela fragilidade em que o Rio de Janeiro se encontra na questão energética. O Rio, hoje, está na ponta do sistema e importa 70% da energia que consome. A conclusão de Angra 2, prevista para o final deste ano, é um trabalho que vamos acompanhar, onde estaremos presentes e tentar garantir o atingimento desta meta. E a real viabilização de Angra 3, que vai agregar 1.300 MW à capacidade de produção do estado, é fundamental para inverter o esquema de suprimento de energia elétrica, que é hoje 70% via importação e 30% gerado no local. Além disso, a entrada em operação de Angra 2 e Angra 3 viabilizará economicamente a produção do combustível nuclear na INB, através da usina-piloto de enriquecimento por ultracentrifugação, que usa tecnologia desenvolvida pela Marinha. Com essa fábrica, vamos estar produzindo para o mercado interno e até mesmo exportando.

Com relação à geração de empregos, como o sr. vê a participação das duas novas usinas?

Angra 2 tem uma importância fundamental para a geração de empregos em Angra dos Reis, uma região que está extremamente afetada economicamente. Com o declínio da indústria da construção naval e com a paralisação das atividades do estaleiro Verolme, Angra dos Reis vai enfrentar uma situação muito complicada. Nós estamos muito preocupados com isso e uma solução que se apresenta, e que deveremos aproveitar, é o casamento das indústrias de energia e construção naval. E Angra 3, certamente, vai justificar a criação de novos programas de capacitação profissional, ampliando a formação técnica através de convênios com as universidades do Rio de Janeiro.

A área nuclear tem inúmeras outras aplicações além da geração de energia. Ela é muito importante também na medicina e na produção de alimentos. No entanto, existem inúmeros projetos na área de medicina nuclear, como a produção de radiofármacos, que beneficiam milhares de pessoas e que correm o risco de não se viabilizarem por falta de recursos. Como o sua secretaria pode ajudar a viabilizá-los?

A indústria nuclear tem grande potencial para alavancar projetos sociais. Um exemplo disso é o projeto do IEN para criação de um centro de diagnóstico equipado com um tomógrafo PET. É fantástico! O PET permite melhorar, e muito, a capacidade de diagnóstico de doenças como o câncer em estágios bem iniciais. Nós temos que apoiar esse projeto, por seu grande alcance social e também porque será o primeiro tomógrafo desse tipo da América Latina.

Outro projeto fundamental que poderá ser alavancado como um programa do pólo nuclear é a instalação de uma unidade de irradiação de alimentos. Operando em escala comercial, essa unidade aumenta a qualidade dos alimentos produzidos no estado, que ganham maior capacidade de preservação e armazenagem e, com isso, podem ser exportados para outros estados e até mesmo para o exterior. A unidade de irradiação de alimentos é um projeto que vamos procurar desenvolver, em consonância com trabalhos de outras secretarias, como, por exemplo, o programa de fruticultura do norte fluminense e outros programas de desenvolvimento da agricultura.

Outro ponto que consideramos fundamental é que uma série de programas de contrapartidas sociais podem ser executados em conjunto com as empresas do pólo nuclear no Rio de Janeiro. Acreditamos poder incrementar com a Eletronuclear e INB programas de parcerias sociais com as comunidades. Ações como essas são extremamente positivas e o mundo inteiro, hoje, caminha nessa direção.

Essa vai ser uma marca registrada da administração Garotinho?

Exatamente. Não estamos inventando. O próprio prêmio Malcolm Baldridge _ o prêmio de qualidade norte-americano e que tem como espelho no Brasil o Prêmio Nacional da Qualidade - tem uma categoria chamada Responsabilidade Pública e Comunitária, que dá um alto grau de pontuação. Consideramos que as empresas devem se espelhar nesse aspecto do prêmio Malcolm Baldridge e aumentar sua responsabilidade pública e comunitária, participar mais dessa integração com a comunidade.

Outro ponto muito importante: nós consideramos que o Rio de Janeiro pode e deve se tornar um grande centro internacional de concentração de eventos da área nuclear. Junto com a Aben, pretendemos transformar o Rio de Janeiro numa vitrine, num grande ponto de concentração de eventos internacionais da área nuclear.

O governo Garotinho é um governo de coalizão, que reúne representantes de diversos partidos. Dentro desse quadro, há setores que sempre se manifestaram contrários à energia nuclear. Como o governo vai conciliar os projetos de sua secretaria com uma possível oposição desses setores?

Há dois aspectos que devemos considerar. Em primeiro lugar, a nucleoeletricidade não pode ser vista como concorrente das outras fontes de geração de energia, como a hidroeletricidade, o gás e outras fontes renováveis como a energia eólica. Todas elas vão receber total atenção do estado, porque todas são fontes economicamente viáveis. É um grande erro estimular a competição entre essas diversas fontes. Na verdade, todas têm um papel a desempenhar e devem compor um mix. Mesmo que uma fonte não tenha total viabilidade econômica em um determinado momento, é importante investirmos nela, termos o domínio de sua tecnologia, para que ela possa ser utilizada no momento em que outras fontes se tornem menos viáveis. Com isso, estaremos dominando o ciclo da energia. Não devemos agir buscando sempre a fonte mais barata. O que é mais barato em um momento certamente não o será no futuro. Assim, buscamos ter uma visão integrada das diversas fontes de energia e não uma visão preconceituosa de uma em relação a outra. Todas irão receber a devida atenção do nosso governo e vão compor este mix onde vamos trabalhar igualmente, sem qualquer preconceito.

Um outro aspecto que gostaria de ressaltar é que, como engenheiro, considero que a questão ambiental deve ser tratada dentro da técnica e da engenharia e não no campo da emoção. Grandes países como França, Bélgica, Canadá e Japão são produtores de energia nuclear. Todos eles têm a energia nuclear em suas matrizes energéticas, em valores muito superiores ao do Brasil. Efetivamente, estes países estão conseguindo fazer uma boa convivência entre a técnica e a questão ambiental. Eu considero a questão ambiental fundamental, básica, que deve ser respeitada e fielmente seguida. Agora, a discussão não pode se dar no campo da emoção, mas sim no campo da técnica. Tenho participado de diversos eventos e vi que a maior parte das discussões sobre o assunto acontecia em forte ambiente emocional. O que vamos fazer é tentar evitar isso.Para tanto, teremos órgãos analisando a questão ambiental dentro de uma ótica técnica.

O sr. vai criar algum órgão para o meio-ambiente?

O estado já tem uma Secretaria de Meio-Ambiente, com profissionais do mais alto nível. Vamos trabalhar em parceria com eles. As palavras são parceria, racionalidade e não-preconceito. A gente não pode se dar ao luxo de desconsiderar qualquer fonte energética, principalmente na fragilidade em que nos encontramos. É fundamental termos um sistema de energia da maior qualidade para reduzir a insatisfação da população e atrair novas empresas.

O setor nuclear desenvolve diversos projetos de proteção ambiental e combate à poluição. O sr. pretende aproveitá-los?

Isso está muito na linha do que falei anteriormente, que é a questão da cooperação com esses órgãos e da responsabilidade pública e espírito comunitário. Eu acho que, mais do que nunca, nessa questão ambiental, temos que envolver mais todos os órgãos e setores onde a questão do meio-ambiente está inserida.

Em que a sua experiência anterior em entidades como o Clube de Engenharia o ajuda, agora, à frente de uma secretaria de governo?

Essa experiência me deu a oportunidade de ser alguém que convive com opiniões distintas e que tem que buscar a convergência entre elas. Exercer liderança dentro de uma entidade como o Clube de Engenharia é um processo bastante democrático. É preciso saber ouvir todas as opiniões e buscar resultados. Essa é a grande experiência que trazemos destas entidades e que pode ser muito bem aproveitada para tocar projetos dentro do próprio governo.