Fonte : Revista Brasil Nuclear - ano 9 - nº 25 -
Jun-Ago/2002
Sem política industrial não há
projeto social
Carmen Lucia Nery A idustrialização tem sido o vetor central do crescimento e do desenvolvimento econômico dos países. No Brasil, a ampliação da capacidade produtiva tem sido sinalizada pelos planos de governo. Na década de 50, o governo JK impulsionou a implantação de uma indústria automobilística. Nas décadas seguintes, o governo militar, tendo como maior expoente o general Ernesto Geisel, fomentou a criação de indústrias de bens de capital e petroquímicas, além de lançar as bases para a introdução no país da tecnologia nuclear. Essa fase desenvolvimentista foi encerrada. Nos últimos 20 anos, a economia brasileira não tem tido nenhuma frente de expansão a não ser um discurso geral e genérico de que o país deve se jogar às exportações, afirma o economista Carlos Lessa, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esta não é a opção mais saudável para a economia, uma vez que, segundo ele, as exportações dependem de diversos fatores como um mercado externo disposto a importar e o crescimento da economia mundial. O mercado mundial está crescendo pouco e, basicamente, entre as economias do primeiro mundo, com exportações de itens com altíssimo conteúdo tecnológico, explica. Para o economista, o país não só abriu mão de construir frentes internas de expansão industrial, como desestimulou o investimento privado na indústria, ao elevar excessivamente a taxa de juros interna. Para justificar a ausência de uma política industrial, o governo argumentava que ela acabaria produzindo níveis excessivos de proteção para a indústria existente. Que, sem concorrência, passaria a impor preços e a operar com margens de lucros excessivamente elevadas. Dentro da idéia geral da estabilização e da idéia mais geral ainda de integrar o país à pós-modernidade da tal economia globalizada, formulou-se uma diretiva geral de reduzir as margens de proteção da indústria. Só que nesse movimento, que não é totalmente equivocado, o que se fez foi jogar fora a água do banho e, com ela, a criancinha. Nós fomos de um extremo ao outro, critica Lessa. Assim como ele, outros economistas vêm defendendo a criação de uma política industrial adequada aos novos tempos. Em seminário em São Paulo o professor Luciano Coutinho, da Universidade de Campinas, defendeu a criação de medidas emergenciais e heterodoxas de curto prazo e uma política industrial de longo prazo, ancorada em instrumentos modernos e com perfis regionais. Ele propõe como medida emergencial de curto prazo baixar arbitrariamente a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e negociar com o sistema financeiro a utilização de parte dos depósitos compulsórios para financiar o setor produtivo. Com base nas experiências de diferentes países, Coutinho destacou três áreas de atuação dos instrumentos modernos de política de desenvolvimento: reforço aos fundamentos legais (justiça mais ágil, regulamentação, nova lei de falências); ação para redução de riscos financeiros e de inovação tecnológica; e promoção de sinergias regionais e nas cadeias produtivas. Mas, para Lessa, não há como o país adotar uma política industrial consistente se ela não contemplar a recuperação da capacidade de investimento público. Ao abdicar da função de promotor do desenvolvimento sinalizando que o estado seria apenas regulador, o governo deixou de ter a capacidade de articular as frentes de expansão da economia brasileira. É positivo que todos os candidatos à Presidência afirmem que darão importância à área industrial. Mas, para serem conseqüentes, eles precisam dizer como vão ampliar o investimento público e como vão reduzir a taxa de juros básica da economia. Sem isso, não haverá condições macroeconômicas para se estabelecer uma política industrial bem-sucedida, diz. O economista observa que a desmontagem do sistema de política industrial no Brasil foi tão grande que até mesmo o nosso sistema de fomento, no qual a principal agência era o BNDES, dissolveu a sua organização por setores. O banco tinha uma enorme competência setorial, conhecia todos os problemas de cada segmento e as características de todas as empresas. Mas Lessa é otimista ao considerar que nem tudo está perdido. O Brasil tem muita gente competente, as equipes foram desarticuladas mas a competência está aí. Se demorar mais 10 anos, as pessoas começam a morrer mas, no momento, o Brasil tem capacidade de reconstruir essas equipes, acredita. Ele defende também que a política industrial seja articulada com uma política de ciência e tecnologia. Mas ressalta que a política de C&T deve transcender o caráter meramente econômico. Ciência e tecnologia é uma questão de futuro. Uma sociedade que abre mão de acompanhar o progresso científico e tecnológico se desqualifica diante do mundo e perde posição relativa considera. Para ele o desenvolvimento industrial brasileiro tem uma inequívoca e imediata frente de expansão que é a melhoria da qualidade de vida da população do país que não se incorporou ainda à modernidade. E lembra que 20% da população brasileira ainda não dispõem de energia elétrica. O Brasil deveria, enfim, ter um projeto social que é também um projeto industrial. Para isso é necessário um projeto nacional de governo que deve ter vontade política e articulação para fazer o que deve ser feito, conclui.
A indústria é uma das maiores usuárias das técnicas nucleares, respondendo por 31% das licenças para utilização de fontes radioativas. Elas são empregadas, principalmente, para a melhoria da qualidade dos processos dos mais diversos setores industriais como o de bebidas, papel e celulose, siderúrgicas, indústrias automobilística, naval e aeroviária, e o setor petrolífero. As principais aplicações são na medição de espessuras e de fluxos, e no controle da qualidade de junções de peças metálicas. Segundo Eduardo Mendonça, coordenador geral de Licenciamento e Controle da Comissão Nacional de Energia Nuclear Cnen, as principais fontes utilizadas são o Cobalto 60, o Césio 137, o Amerício 241, o Irídio 192 e, mais raramente, o Estrôncio e o Trício. Ricardo Brito, chefe da divisão de Instalações Radioativas da Cnen, ressalta que a utilização das fontes radioativas permite às indústrias alcançar os rígidos parâmetros exigidos pelo mercado externo e agregar mais qualidade aos produtos. Ele cita alguns exemplos. Na indústria de papel, que opera com medidas padrão de gramatura, uma forma de garantir que todas as folhas tenham a mesma gramatura, para atender às exigências do mercado mundial, é a utilização de técnicas nucleares. Na indústria de bebidas, as fontes radioativas vêm sendo utilizadas para controle de enchimento de vasilhames, informa. Outra importante aplicação das técnicas nucleares na indústria é a irradiação. Ela é usada, por exemplo, para aumentar a durabilidade de produtos como os fios e cabos elétricos ou para esterilizar produtos médico-hospitalares em empresas como a Johnson&Johnson (ver Brasil Nuclear 17). A irradiação de cabos foi introduzida no país há 20 anos. Somente no ano passado, o Ipen, que presta esse serviço para inúmeras empresas, irradiou 12 mil quilômetros de cabos. A técnica se disseminou a ponto de muitos fabricantes terem investido na aquisição de aceleradores, para irradiar seus produtos in-house.
Ricardo Brito explica que a radiografia industrial é utilizada não só para assegurar a qualidade na construção de plantas industriais como siderúrgicas e refinarias de petróleo, como também na manutenção e na produção de peças e equipamentos. Um dos processos mais empregados para evitar falhas em peças metálicas usadas na indústria automobilística, aeroviária e naval, é a radiografia de sua superfície. Trata-se de um quesito de controle da qualidade exigido no mercado internacional, e é uma forma de garantir a competitividade do produto nacional, ressalta Brito. Uma das instituições que vêm se dedicando ao desenvolvimento de técnicas nucleares para uso industrial é o Instituto de Engenharia Nuclear IEN. Uma das técnicas oferecidas pela instituição é a que emprega traçadores radioativos para o exame de equipamentos industriais. A técnica consiste na aplicação de material radioativo de meia-vida (tempo em que a radioatividade é reduzida à metade através do decaimento radioativo) curta (horas ou dias) no equipamento a ser analisado. O material emite radiação, que ao ser detectada por um aparelho especial, mostra o estado real da unidade analisada, identificando a existência de obstruções ou vazamentos. O processo permite avaliar a eficiência real dos equipamentos, garante Luiz Eduardo Brandão, pesquisador do Laboratório de Aplicações Industriais de Traçadores Radioativos da divisão de Radioisótopos do IEN. Uma das vantagens oferecidas por essa técnica é a possibilidade de ser aplicada no ambiente de produção, sem que seja necessário paralisar a unidade, completa. Desenvolvendo trabalhos nessa área desde 1998, o Laboratório emprega traçadores sólidos como o Lantânio 140, o Ouro 198, o Manganês 56, o Cromo 51 e a Prata 110 e traçadores gasosos como o Criptônio 85 e o Argônio 40. As indústrias de vidros, cimento, mineração e química em geral são usuárias dos traçadores radioativos, empregados na análise de misturadores de matérias-primas. Em outras indústrias como a de petróleo, é uma importante ferramenta para calibração e aferição de medidores de vazão em unidades que trabalham com gás, oleodutos ou para avaliação de caldeiras, identificando zonas mortas partes que não estão sendo utilizadas por algum problema operacional causando danos aos produtos ou perda de material. Na área de meio-ambiente, principalmente em unidades de controle de emissão de poluentes (sólidos, líquidos ou gasosos), a utilização da técnica de traçadores radioativos permite a avaliação em tempo real de centrais de tratamento de efluentes, possibilitando uma análise das condições operacionais destas unidades, identificando possíveis problemas e otimizando toda a rotina de operação. O IEN vem trabalhando ainda em técnicas similares como o ultra-som, uma alternativa à radiografia industrial, que dispensa o uso de tratamento químico para revelação das chapas. As aplicações são as mesmas da radiografia industrial: inspeção de soldas em tubulações e equipamentos e análise de superfície de chapas metálicas. Segundo o pesquisador Carlos Lamy, a técnica vem sendo utilizada também para melhorar a segurança em instalações nucleares com a avaliação de estruturas e componentes de reatores nucleares vasos de pressão, vaso de contenção, tubulações e trocadores de calor, entre outros componentes. A vantagem desta técnica é que ela não é destrutiva e permite avaliar a integridade dos equipamentos, com a instalação em funcionamento. A técnica de ultra-som foi introduzida no país há sete anos pelo IEN, que a patenteou e está divulgando sua aplicação entre as indústrias. Fizemos um ensaio na Nuclep e, em 1999, iniciamos um projeto com a Agência Internacional de Energia Atômica para avaliar por ultra-som tensões e escoamento monofásico nos processos de resfriamento em reatores nucleares. O projeto foi financiado pela Agência, que liberou US$ 192 mil, informa Lamy. Até recentemente, o ultra-som tinha uma limitação: não oferecia registro, o que obrigava o inspetor a analisar a tela, na hora, para emitir o laudo. Mas, segundo José Maurício Barbosa Rabelo, consultor técnico da Petrobrás, empresa usuária desta técnica, ela está evoluindo e já existem empresas que oferecem ultra-som com registro. Em alguns anos esta será a técnica predominante pois é mais segura e mais rápida, acredita.
Atualmente, uma das aplicações é a medição multifásica, que permitirá à empresa otimizar o uso de equipamentos e medir em tempo real a produção isolada de poços de petróleo . Inicialmente, ela será direcionada para os poços em águas profundas. Ao explorar uma região submersa, a empresa perfura vários poços, nos quais instala duas tubulações para a extração do óleo e do gás. A produção desses poços é concentrada num equipamento conhecido como manifold, que atua numa fase intermediária antes do óleo chegar à plataforma através de outras duas tubulações. O problema que dificulta a medição é que na extração saem não apenas óleo como também água e gás. No processo anterior, medir a produção isolada de um poço exigia engenharia e logística complexas: era preciso desconectar uma das duas linhas de escoamento e manter uma secundária para a medição da produção. A medição da produção, nos moldes atuais, por ser um processo caro (linhas de escoamento redundantes), onera o processo produtivo, na medida em que se pára a produção para realinhamento de linhas e plantas de separação, observa Fábio Augusto Parreira Reis, supervisor de Proteção Radiológica do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Américo Miguez de Mello Cenpes, unidade da Petrobras. Com a adoção da tecnologia de medição multifásica, o processo de medição foi simplificado e ficou mais eficiente. O processo usa fontes radioativas de elementos como o Bário e o Césio através de um equipamento que é instalado no manifold. A radiação, ao passar pelo óleo, água e gás é absorvida de modos distintos e sua quantificação é mensurada por detectores. O resultado, somado aos outros princípios de medição, consegue determinar o quanto dos vários fluidos estão efetivamente chegando à plataforma. O uso da nova técnica permitiu à empresa fazer, pela primeira vez, medições em tempo real ainda no fundo do mar e, também, avaliar a possibilidade de se eliminar a necessidade de instalação de duas linhas de escoamento em cada poço. E, além disso, reduziu os custos da operação. Segundo Reis, cerca de US$ 300 mil investidos no equipamento podem resultar em uma economia de US$ 1,5 milhão no processo de medição. Outra aplicação adotada pela Petrobras é o uso de fontes radioativas para identificar e analisar as diferentes camadas geológicas atravessadas durante a perfuração de um poço. Esse processo, denominado perfilagem, consiste na introdução de uma ferramenta com uma fonte radioativa na extremidade que vai traçando o perfil do poço. O Cenpes utiliza ainda diversos equipamentos e técnicas nucleares na área de pesquisa. Um exemplo é a tomografia computadorizada, bem como outros sistemas de geração de imagens, que têm sido amplamente utilizados em pesquisas na área de engenharia do petróleo. O objetivo é visualizar de forma não destrutiva as estruturas internas das rochas. As imagens geradas têm sido rotineiramente empregadas na avaliação de testemunhos representativos de campos petrolíferos e na seleção de amostras para análises especiais. Heterogeneidades e fraturas em amostras são facilmente identificadas, o que reduz as margens de erro nas projeções de desempenho dos reservatórios. O Cenpes também vem desenvolvendo estudos na área de petrofísica, na determinação de porosidade, saturação de fluidos e permeabilidade, com o objetivo de aperfeiçoar e subsidiar a simulação de reservatórios. Na perfuração de poços, a seleção de fluidos utilizados deve ser acompanhada de criteriosa avaliação. Equipamentos desenvolvidos especialmente para simulação das condições de campo em ensaios de laboratório reproduzem o escoamento de fluidos, monitorados em tempo real por tomografia. A Petrobras é também uma grande usuária das técnicas de gamagrafia e radiografia industrial. As técnicas são utilizadas, na área de Engenharia, pela unidade responsável pelo gerenciamento da construção de plataformas, oleodutos e refinarias. O objetivo é verificar o estado das soldas, se há falhas internas e se as juntas estão com o nível de qualidade adequado para se evitar vazamentos. A gamagrafia apresenta vantagens em relação a alguns outros ensaios não destrutivos tais como líquidos penetrantes, ultra-som ou o uso de partículas magnéticas, uma vez que estes só conseguem verificar defeitos superficiais e apresentam restrições quanto à eficácia. A gamagrafia identifica defeitos internos, fornecendo uma avaliação muito mais consistente, observa Eduardo Iguchi, engenheiro de inspeção do Setor de Qualificação e Inspeção, do departamento de Engenharia da Petrobras.
Segundo o contra-almirante Alan Paes Leme Arthou, diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), várias empresas se beneficiaram desse resultado, podendo comprar componentes e equipamentos produzidos nacionalmente a preços muito menores e com uma qualidade superior. Entre os componentes e equipamentos desenvolvidos durante a execução do projeto do submarino nuclear destacam-se: espectrômetros de massa, válvulas de bloqueio e de acionamento eletromagnético e bombas de vácuo (utilizadas na indústria farmacêutica e química); ligas especiais e aços de alta resistência, autoclaves e resinas (usadas na indústria mecânica); turbinas a vapor, juntas de expansão, condensadores e trocadores especiais de calor (voltados para a industrial naval e nuclear). O projeto do submarino também beneficiou empresas da área nuclear, como a Nuclep que teve o ritmo de produção reduzido com o final das obras de construção da usina de Angra 2. A empresa construiu o vaso de pressão, principal componente do reator do submarino, que foi projetado pela Marinha (ver seção Átomos). Com o programa de obtenção do submarino nuclear, a Marinha também contribuiu para que o Brasil conseguisse dominar a tecnologia de enriquecimento do urânio, um feito alcançado por poucos países no mundo. Desenvolvemos o processo e os equipamentos (centrífugas) para a obtenção do urânio enriquecido que é o combustível usado pelo submarino nuclear. A centrífuga, que gira em altíssima rotação, é alimentada com Hexafluoreto de Urânio, e separa os isótopos do Urânio 235 dos isótopos do Urânio 238 e, desta forma, prepara o combustível, explica o diretor do CTMSP. As centrífugas desenvolvidas pela Marinha foram adquiridas pela
INB (Indústrias Nucleares do Brasil), empresa que fornece o combustível
nuclear para as usinas Angra 1 e 2. Segundo o diretor do CTMSP, o processo
de enriquecimento do urânio permitirá ao país economia
de US$ 10 milhões anuais. Com seu término previsto para
2011, o projeto de propulsão nuclear deverá continuar gerando
novos desenvolvimentos e, desta forma, beneficiando a indústria
brasileira. |