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Fonte : Revista Pesquisa FAPESP - nº 69 - Outubro/2001


Detector de bactérias

Em duas horas laboratório identifica microrganismos patogênicos no Rio

Cercada por jovens cientistas no laboratório onde pesquisa física nuclear aplicada, a professora Vergínia Reis Crispim mostra uma plaquinha de plástico como um troféu: por meses essa placa impregnada de bactérias circulou no Rio de Janeiro entre seu laboratório, na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação (Coppe) da Universidade Federal (UFRJ), e o reator do Instituto de Energia Nuclear (IEN), uma área de segurança nacional só usada para pesquisas. Os pesquisadores tinham autorização para o seguinte teste: pôr a placa no reator e bombardeá-la com um feixe de nêutrons para obter imagens das bactérias. Objetivo: criar um método rápido de identificar microrganismos causadores de doenças.

A placa manuseada por Vergínia, que coordena as pesquisas, traz impressos os traços de uma bactéria. Para os pesquisadores, é uma prova de que alcançaram o objetivo. Além de visualizar e identificar bactérias por um método inédito, a equipe do Laboratório de Neutrongrafia em Tempo Real da Coppe descobriu que poderia fazer isso em poucas horas - enquanto, pelo método convencional, leva-se em média três dias para identificar uma bactéria.

Tratamento imediato

Rapidez no diagnóstico é essencial ao tratamento de infecções por bactérias, principalmente no atendimento de emergência a pacientes imunologicamente debilitados. "Nosso método permite mapear fisicamente a bactéria. Pelo formato, podemos dizer a qual grupo ela pertence e possibilitar tratamento quase imediato com o antibiótico adequado", explica Vergínia. O uso do antibiótico correto afasta ainda o perigo de aparecimento de mutações na bactéria que fortaleçam sua resistência a medicamentos, um dos grandes problemas atuais da saúde pública.

O método foi testado em três classes de bactéria - bacilo, coccus e espirilo. Entre elas estão as causadoras de diarréia ( Escherichia coli ), infecções respiratórias ( Staphylococcus e Streptococcus ), leptospirose ( Leptospira ), sífilis ( Treponema ) e tuberculose ( Mycobacterium tuberculosis ). Para esta última, o diagnóstico convencional pode demorar 15 dias.

Na técnica desenvolvida na Coppe, amostras de sangue, urina e fezes contaminadas são postas numa composição com boro e esse elemento químico envolve as bactérias numa espécie de manto. Depois, elas são postas no reator e bombardeadas com feixes de nêutrons, que passam a reagir com os átomos de boro, provocando uma reação nuclear com emissão de partículas alfa. Essas partículas provocam fissuras no CR-39, o detector plástico onde a amostra foi coletada, imprimindo nele marcas que revelam o formato das bactérias - é a chamada imagem neutrongráfica ou radiografia com nêutrons.

Depois da revelação química da placa de CR-39, basta observar essa imagem por um microscópio óptico para identificar o tipo da bactéria presente. "Os testes mais recentes indicaram que todas as etapas podem ser feitas em menos de duas horas usando-se um microscópio óptico convencional."