Fonte : Fonte Nuclear - ano 7 - nº 39 - 20/12/2002
Rio terá produção de radiofármaco
para tomografia de alta resolução
A partir do ano que vem, o Rio de Janeiro estará equipado para
realizar exames de tomografia por emissão de pósitrons (PET,
pela sigla em inglês), uma das técnicas mais modernas para
diagnóstico em áreas como oncologia, neurologia e cardiologia.
O Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) inaugurou no dia 12/12 um laboratório
para produção do flúor-18, radioisótopo utilizado
no exame, que permite imagens mais nítidas e um diagnóstico
mais eficiente.
O exame PET é feito pela injeção no paciente do radiofármaco
FDG (fluordesoxiglicose) - formado pelo radioisótopo flúor-18
e por uma molécula de glicose -, que se distribui praticamente
por todas as células do organismo e se concentra em locais onde
o metabolismo celular estiver aumentado. O flúor-18 serve como
marcador. Através da radiação emitida por ele, o
tomógrafo capta imagens da área examinada.
No caso de tumores cancerígenos, por exemplo, haverá uma
multiplicação maior que o normal das células, portanto,
ocorrerá maior concentração de glicose. Em contrapartida,
em lesões cardíacas e cerebrais, haverá concentração
menor que a normal. "O exame consegue diferenciar o tumor maligno
do benigno, o primário da metástase, além de detectar
tumores em estágio inicial, a partir de 3 mm de espessura. Pode
ainda evitar exames invasivos, como a biópsia. Sua grande vantagem
é que ele não mostra apenas a forma do órgão,
mas dá informações sobre seu metabolismo. É
uma ferramenta fantástica", destaca o superintendente do IEN,
Sérgio Cabral.
Além do diagnóstico do câncer, o PET pode ser utilizado
em outras áreas. Em neurologia, pode mapear funções
cerebrais ou avaliar lesões. É possível também
obter diagnósticos precoces dos males de Alzheimer e Parkinson
e verificar efeitos danosos decorrentes do uso de drogas. Em cardiologia,
pode-se identificar o grau de capacidade de recuperação
do músculo cardíaco após um enfarto.
Há ainda um campo inexplorado nas utilizações do
PET, que pode ter grande relevância em nosso país: as doenças
tropicais. "Como o PET foi criado em países desenvolvidos,
que não têm estas doenças, não se procurou
explorar esta área. A cada ano, são milhares de casos no
Brasil de hanseníase, doença de chagas e tuberculose, entre
outras. Utilizar o PET para estas doenças pode trazer um benefício
tremendo para a saúde pública", afirma Cabral.
O Brasil, por enquanto, não conta com nenhum tomógrafo PET
em operação. O primeiro será instalado no Instituto
do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da USP,
em São Paulo, nos próximos meses. A aquisição
faz parte de um acordo firmado entre a instituição e o Instituto
de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) para a implantação
de um centro de radiofarmácia no Incor, que visa, principalmente,
a produção do flúor-18. O Ipen também produz
o radioisótopo, atendendo a região metropolitana da capital
paulista.
Entretanto, o flúor-18 já é utilizado em tomógrafos
de emissão de fótons simples (Spect), que proporcionam imagens
semelhantes. No Rio de Janeiro, já existem dois em operação.
A expectativa é de que esse número triplique ainda no primeiro
ano de fornecimento pelo IEN. Tomógrafos PET também deverão
ser adquiridos por hospitais e clínicas do município.
IEN poderá atender cerca de 30 hospitais
por dia
O atendimento do IEN ficará restrito ao Rio e municípios
próximos devido à curta meia-vida (tempo que leva para radiação
cair pela metade) do flúor-18, que é de 109 minutos. Portanto,
os centros de utilização do radioisótopo precisam
estar dentro de uma distância de duas horas do local de produção.
O IEN já produzia o flúor-18 em caráter experimental.
Agora, com a aquisição de um ciclotron - equipamento utilizado
para produzir o radioisótopo - para o novo laboratório,
o atendimento às instituições de Saúde cariocas
ganhará regularidade e confiabilidade. O instituto produzirá
cerca de 240 doses por dia, podendo atender até 30 hospitais diariamente.
- Um tomógrafo PET requer um investimento muito grande, que hospitais
e clínicas só estão dispostos a fazer tendo a garantia
do fornecimento do flúor-18. Com o novo laboratório, vamos
garantir um suprimento regular, de forma que estas instituições
tenham condições de se aparelhar e, então, fazer
uso desta tecnologia, explica o chefe da Divisão de Radiofármacos
do IEN, Júlio Cezar Suita.
Além disso, o IEN firmou uma parceria com o Instituto Nacional
do Câncer (Inca) e com o Hospital Universitário Clementino
Fraga Filho da UFRJ, que instalarão tomógrafos para uso
com o flúor-18 em dependências adjacentes ao laboratório
de produção do radioisótopo. "Teremos o flúor-18
sendo produzido e utilizado no mesmo local.
Poderemos até criar aqui um centro de referência em imagens
PET para diversos fins. Será importante também para fazer
um grande levantamento de dados para pesquisas", ressalta Antonio
Carlos Barroso, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear
(CNEN), à qual o IEN é ligado.
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