Fonte : Jornal do Brasil - 10/11/2002
Angra III, aspectos estratégicos
*Joaquim F. de Carvalho - Consultor em Energia Com o atraso do programa hidroelétrico, a decisão sobre Angra III deve agora incorporar uma análise estratégica, pois não é prudente que grande parte da economia brasileira fique ao sabor do gás natural importado, cuja regularidade de fornecimento e os custos dependem da estabilidade política da Bolívia e outros países que, em breve, entrarão no cenário. Angra III não usará combustíveis importados, daí sua a importância estratégica. É claro que há outros aspectos também importantes, que entretanto deixaram de ser decisivos para desaconselhar a construção da usina. Entre estes está o estudo, que deve ser feito, para determinar qual será a contribuição da usina para a confiabilidade elétrica do sistema interligado da Região Sudeste e se essa confiabilidade não poderia ser aumentada com o reforço do sistema de transmissão das regiões Sul e Sudeste. Há ainda a questão do impacto dos custos de produção de Angra III sobre a composição da tarifa média de suprimento. Sobre isso, os dados oficiais mostram que a eletricidade gerada nas hidroelétricas de Furnas é muito mais barata do que a de Angra I e Angra II, que recebem subsídios da União. Ao arcar com a diferença entre os custos hidroelétricos e nucleares, em última análise o governo obriga os consumidores a subsidiar os lucros das distribuidoras. Isto não acontecia quando aquelas usinas pertenciam a Furnas e eram subsidiadas pela diferença entre os baixíssimos custos das velhas hidroelétricas e os elevados custos das nucleares. Portanto, a transferência das usinas nucleares, de Furnas para a Eletronuclear, dificultou a construção de Angra III. No tocante aos impactos ambientais, todos sabem que, em operação rotineira, as usinas nucleares praticamente não agridem o meio ambiente. No entanto as futuras gerações herdam o problema dos rejeitos de alta atividade, que atualmente vão sendo depositados em condições que não se pode considerar absolutamente seguras. Assim, os planos para a retomada do projeto Angra III devem ser acompanhados de um estudo de impacto ambiental e de um plano para a evacuação das populações residentes nas áreas sujeitas a elevadas doses de radiação, em caso de vazamento de radionuclídeos de alta atividade. Deve-se, por fim, estudar uma solução técnica e economicamente realizável (com a respectiva alocação de recursos) para o problema da disposição final dos rejeitos de alta atividade e longa meia-vida, provenientes dos combustíveis irradiados na operação da usina. Quanto aos programas de pesquisa e aplicação de radioisótopos nas áreas biomédica, industrial e agrícola, infelizmente ficaram em segundo plano diante do programa eletronuclear, que absorveu boa parte dos escassos recursos que deveriam ter ido, por exemplo, para o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Piracicaba) e para o Instituto de Energia Nuclear, do Rio de Janeiro, ou, ainda, para o projeto conjunto da Marinha com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo. Este projeto era especialmente interessante sob o aspecto estratégico. Além do reator de propulsão naval, muito importante para o Brasil, com seus 8.000km de costa, o projeto contemplava o desenvolvimento da principal etapa do ciclo do combustível nuclear, o enriquecimento do urânio, que era o ponto fraco da cooperação nuclear com a Alemanha. A instalação de enriquecimento por ultracentrifugação, que foi construída e testada com êxito, comprova o sucesso da cooperação da Marinha com o Ipen. Note-se que o reator de propulsão naval pode ser adaptado e ampliado, para gerar eletricidade em escala comercial, em módulos na faixa de 20 a 40 MW de potência elétrica, para atender a cidades de médio porte e sistemas isolados, que não podem ser alcançados em condições econômicas pelo sistema elétrico interligado. O desenvolvimento da energia nuclear no Brasil poderia receber um grande impulso, se o projeto da Eletronuclear fosse integrado ao da Marinha/Ipen, visando ao aproveitamento das evidentes sinergias que há entre eles, seja no tocante à otimização dos recursos orçamentários, seja no que diz respeito ao melhor aproveitamento dos profissionais altamente qualificados que trabalham na Eletronuclear, na Marinha e no IPEN. * Joaquim Francisco de Carvalho, mestre em ciências de engenharia,
foi diretor da Nuclen |