Fonte : O Estado de São Paulo - 20/12/1996
Lançamento de submarino nuclear tem sido uma
incógnita
A seguir, trecho do livro 'Histórias Secretas do Brasil Nuclear', que fala do projeto TANIA MALHEIROS Especial Não existem informações confiáveis sobre o total investido em Aramar no projeto de construção do submarino atômico. Pelo menos até 1990, verbas de contas secretas administradas pelo Conselho de Segurança Nacional (CSN) foram fundamentais para alimentar o programa paralelo, principalmente o da Marinha. Mesmo a partir da denúncia sobre a existência dessas contas, em 1986, as verbas continuaram sendo repassadas aos projetos paralelos. Contudo, no conturbado governo Collor, com a extinção do CSN e a criação da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), esses recursos foram reduzidos. Por tudo isso, o ano de lançamento do submarino também tem sido uma incógnita. Até 1993, funcionários da Marinha estimavam datas que variavam entre 1997 e 2002. Entretanto, em 1995, na SAE e na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) já havia quem apostasse que o submarino não seria concluído antes do ano 2020. Vale registrar que, há algum tempo, uma corrente de opinião considera irracional a opção por um submarino nuclear a custos astronômicos e com risco de obsolescência, face aos avanços tecnológicos mundiais na área nuclear. Pelo que se sabe, essa corrente nunca se manifestou junto ao primeiro plano hierárquico do poder. O fato é que, ao longo dos últimos anos, a construção do submarino atômico tem sido uma espécie de bandeira, sempre levantada pelo governo e militares, em defesa da soberania nacional. Uma declaração do ministro da Marinha, Mauro César Pereira, ao jornalista Alexandre Secco, em setembro de 1995, complicou ainda mais essa "novela". Naquele momento, quando o Congresso discutia o orçamento de 1996, o ministro declarou que dar continuidade ao projeto do submarino seria "uma bobagem". Segundo o ministro, a Marinha mudara de planos, passando a priorizar a construção de submarinos convencionais movidos a diesel e energia elétrica. O que pretendia o ministro? Afinal, desde 1989, como lembrou o jornalista, a Marinha tenta convencer parlamentares sobre a necessidade do submarino nuclear. Dois meses depois, declarações oficiais serviram para aumentar as desconfianças em torno das verdadeiras intenções do Governo em relação ao caso. O diretor do Centro Técnico da Marinha (CTM, sucessor da Copesp), contra-almirante Ivan de Aquino Viana, anunciou que o submarino nuclear deverá ser lançado ao mar entre 2006 e 2007, a um custo de US$ 2,2 bilhões. Desde 1979 até aquela data, o projeto consumira US$ 800 milhões, mas dependia de US$ 1,4 bilhão para ser concluído. O diretor do CTM revelou outros detalhes sobre o submarino: com 90 metros de comprimento, ele terá um reator interno (versão compactada do PWR), ocupando aproximadamente três metros, e todo um sistema de propulsão com loop primário (geradores de vapor) e loop secundário (turbinas a vapor, geradores e motor elétricos) e será capaz de atingir velocidade de até 30 nós, podendo ficar submerso durante vários meses. "O submarino será um meio de defesa para o país", frisou Aquino Viana.... As informações estavam frontalmente em desacordo com as declarações do ministro da Marinha, para quem construir o submarino nuclear era uma "bobagem". A convite da Marinha, vários deputados e jornalistas conheceram Aramar no final de 1995. As visitas eram parte de mais uma estratégia do Ministério da Marinha para tentar garantir recursos ao projeto do submarino no orçamento de 1996. Oficialmente, a verba disponível para a Marinha aplicar no projeto totalizava R$ 20 milhões anuais. Daí, o lobby para o remanejamento de R$ 30 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia para o submarino, através da aprovação de uma emenda, apresentada pelo vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, deputado federal Paulo Heslander (PTB-MG). Uma outra declaração, logo em seguida, ampliou o mistério envolvendo o projeto. Em Aramar, o ministro da Marinha, Mauro César Rodrigues Pereira, reforçou o que dissera antes, anulando as afirmações de Aquino Viana. "A Marinha desistiu de construir o submarino nuclear brasileiro. Tivemos que redirecionar o projeto em razão da falta de dinheiro", frisou o ministro. Segundo ele, o Ministério da Marinha reivindicava cerca de US$ 50 milhões ao governo para reaproveitar a estrutura de Aramar para desenvolver usinas nucleoelétricas e construir submarinos convencionais. Depois de tanto investimento, sigilo, conexões internacionais clandestinas para a aquisição de equipamentos e verbas provenientes de contas secretas, como avaliar o verdadeiro sentido da declaração do ministro Mauro César Rodrigues Pereira? Teria o ministro se rendido à força da corrente defensora dos submarinos convencionais? Quis o ministro dar a entender ao Primeiro Mundo que estava derramando "um balde de água fria" no projeto? Haveria na intenção do ministro a tentativa de esvaziar também as atenções internacionais e de grupos ecológicos sobre o projeto Aramar, num esquema de dissimulação estratégica? Ou, de fato, pelo menos temporariamente, o projeto está suspenso? No dia 17 de junho de 1996, Ivan de Aquino participou de um ciclo de debates no Instituto de Energia Nuclear (IEN), parte das comemorações dos 40 anos da fundação da CNEN. Lá, o contra-almirante voltou a afirmar que o projeto do submarino não foi sepultado, embora prossiga em ritmo lento, por falta de verbas. A transcrição do capítulo acima foi autorizada pela
editora WVA. |