O IEN na mídia

Fonte : Jornal O Globo - 28/02/2001


Medicina Nuclear: há razão de ter medo?

Cláudio Tinoco Mesquita e Leia M. B. da Fonseca

A população tem sido surpreendida nos últimos tempos com notícias referentes ao emprego de substâcias radioativas - os chamados radionuclídeos - no diagnóstico e tratamento de problemas de saúde. A implantação de um serviço de medicina nuclear em um hospital, clínica, ou mesmo em um laboratório, entretanto não deve causar medo, considerando que há normas rígidas para isso. Sem atender a essas normas, o serviço não pode começar a operar por causa da intensa fiscalização exercida pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Os radionuclídeos são utilizados no mundo desde 1940 e no Brasil começaram a ser empregados em 1955. Milhares de pessoas já foram beneficiadas com seu uso e outras ainda serão, já que métodos cada vez mais seguros e precisos têm sido desenvolvidos para isso. A cintilografia, denominação genérica dos exames de medicina nuclear, faz parte do cotidiano dos médicos.

O uso de radionuclídeos na medicina é fundamental para o diagnóstico e tratamento de inúmeras doenças, como tumores, obstruções de artérias, doenças renais e da glândula tireóide e câncer ósseo. Além disso, o avanço tecnológico tem permitido o uso de radionuclídeos que emitem radiações que ficam menos tempo no organismo e não lhe causam danos.

Para se ter uma idéia desse avanço, a radiação cósmica num vôo Rio-São Paulo - que é mínima - é ainda superior à administrada atualmente em exames de medicina nuclear.

Estamos caminhando para o emprego de aparelhos capazes de utilizar essas substâncias no diagnóstico do câncer em fase bastante precoce, como nenhum outro exame é capaz de fazer, possibilitando um tratamento mais eficaz e com maiores chances de cura, além de diminuir custos.

Esta técnica, denominada tomografia por emissão de pósitrons, já está disponível no mundo inteiro, e no Brasil esforços têm sido feitos para que ela seja implantada pelas Universidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, e também pela CNEN, através do IEN-RJ e do IPEN-SP (órgãos que produzem e distribuem radionuclídeos no país).

Para obter o título de especialista em medicina nuclear, os médicos são submetidos a uma rigorosa avaliação feita pela CNEN e pelo Colégio Brasileiro da Radiologia (CBR). Só depois de serem aprovados, eles recebem autorização para trabalhar com radionuclídeos. Entre os requisitos desses processos de avaliação estão a residência de dois anos na área de medicina nuclear em hospitais credenciados pela CBR.

A fiscalização por parte da CNEN é salutar e deve ser cobrada pela sociedade. A reciclagem dos profissionais da área - como a realizada para Sociedade Brasileira de Biologia e Medicina Nuclear e o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (CNEN) - deve ser estimulada. O uso diciplinado e adequado das técnicas nucleares tem muito a acrescentar à população, permitindo o alívio da dor e detectando uma sére de doenças ainda em fases em que a cura é possível.

Através da conscientização da sociedade sobre a importância da medicina nuclear e do estímulo à formação de profissionais habilitados para trabalhar na área, além da pesquisa em instituições de ensino e da fiscalização pelos órgãos competentes, poderemos chegar ao nível de excelência alcançado em outros países.

Um nível em que o medo seja superado pelo conhecimento, os avanços tecnológicos sejam empregados sem receio em prol da ciência e da saúde e o amplo debate sobre o assunto beneficie toda a população, eliminando temores ou riscos desnecessários.

Parece que não estamos longe disso. Esforços têm sido feitos e esperamos que o resultado desses esforços dissipen o medo infundado - que pode ser pior que muitas doenças.